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Política 'Só uma'

Em depoimento moro diz que Bolsonoro pediu superintendência do Rio:'Você tem 27, eu quero apenas uma',

Por diversas vezes durante depoimento, segundo registro de relatório da PF, ex-ministro Sergio Moro disse que não acusou o presidente de crime algum, e que isso cabe aos investigadores.

05/05/2020 19h03
Por: Pablo Carvalho Fonte: g1

O ex-ministro da Justiça Sergio Moro afirmou, no depoimento que prestou à Polícia Federal no último sábado (2), que o presidente Jair Bolsonaro pediu em fevereiro, por mensagem de celular, para indicar um novo superintendente para a Polícia Federal no Rio de Janeiro. Por diversas vezes durante o depoimento, segundo o relatório, Moro diz que não acusou o presidente de crime algum, e que isso cabe aos investigadores.

"A mensagem tinha, mais ou menos o seguinte teor: 'Moro você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro'", de acordo com o texto do relatório sobre o depoimento obtido pela TV Globo.

O depoimento do ex-ministro foi motivado por inquérito aberto pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, a pedido da Procuradoria Geral da República, a fim de apurar se Bolsonaro tentou interferir politicamente na Polícia Federal.

Essa suposta interferência foi a razão apontada por Moro em pronunciamento para ter deixado governo. O ex-ministro fez esse anúncio no último dia 24, quando o "Diário Oficial da União" publicou a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, delegado Mauricio Valeixo. Segundo o ex-ministro, ele não tomou conhecimento prévio da demissão do diretor.

Moro afirmou aos policiais federais que a mensagem de celular na qual Bolsonaro teria pedido para ele próprio indicar o superintendente da PF no Rio foi enviada pelo presidente no começo de março, quando o então ministro e o então diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, estavam em missão oficial nos Estados Unidos.

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O ex-ministro diz que chegou a conversar sobre o tema com Valeixo, e que ambos "até aventaram a possibilidade de atender ao Presidente para evitar uma crise". Mas Valeixo disse que, neste caso, não poderia permanecer no cargo.

No depoimento, Moro disse que "não nomeou e não era consultado" sobre o comando desses órgãos regionais, e que a escolha era exclusiva de Valeixo. O ex-ministro diz que não opinou nem na superintendência do Paraná, estado onde foi juiz.

Questionado sobre os motivos de Bolsonaro para querer definir o superintendente do Rio, Moro não opinou e disse que apenas o próprio presidente poderia responder.

Reação de Valeixo

Ainda nesta conversa nos EUA, relata Moro, Valeixo declarou que estava "cansado da pressão para a sua substituição" e para a troca do comando da PF no Rio. E que, por isso, concordaria em sair do cargo.

Até ali, diz Moro, não havia solicitação da Presidência da República "sobre interferência ou informação de inquéritos que tramitavam no Rio de Janeiro".

O ex-ministro diz que cogitou atender às trocas se pudesse indicar novos perfis técnico. Depois, diz ter voltado atrás.

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O dia anterior

Na manhã do dia 23 de abril, véspera das exonerações, Moro se reuniu com Bolsonaro no Palácio do Planalto – o encontro consta na agenda oficial de ambos.

O ex-ministro diz aos investigadores que, nessa ocasião, foi avisado que Valeixo seria trocado por Alexandre Ramagem, "a pedido, ou de ofício", porque o novo diretor seria "uma pessoa "de confiança do Presidente, com o qual ele poderia interagir".

"O Declarante [Moro] informou ao Presidente que isso representaria uma interferência política na PF, com o abalo da credibilidade do governo, isso tudo, durante uma pandemia", diz o termo de depoimento.

Em resposta, Moro diz ter ouvido que Bolsonaro "lamentava", mas que a decisão "já estava tomada".

Em seguida, Moro afirma ter-se reunido com os ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Braga Netto (Casa Civil) – três dos principais conselheiros de Bolsonaro. Moro diz que compartilhou, com esses ministros, os pedidos de Bolsonaro para obter relatórios de inteligência da PF.

Diz, também, que o ministro Heleno afirmou nesta reunião que "o tipo de relatório de inteligência que o Presidente queria não tinha como ser fornecido". Os ministros, segundo o depoimento, disseram que conversariam com o presidente sobre o tema, mas não deram retorno a Moro naquele dia.

A demissão

Moro repetiu, no depoimento à Polícia Federal, que não assinou a exoneração de Maurício Valeixo e nem recebeu qualquer pedido escrito ou formal de exoneração do então diretor da PF.

O "Diário Oficial da União" com o documento foi publicado na madrugada de 24 de abril, assinado por Bolsonaro e Moro. Depois, o governo publicou uma edição corrigida, com assinaturas de Bolsonaro, Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos.

Na mesma manhã, Moro afirma que se reuniu com Valeixo. Já ex-diretor da PF, o delegado disse a Moro que "não teria assinado ou feito qualquer pedido de exoneração". Segundo o termo de depoimento, Valeixo disse a Moro que recebeu ligação do presidente na noite anterior, informando da exoneração e perguntando se poderia ser "a pedido".

Em resposta, de acordo com Moro, Valeixo disse que "como a decisão já estava tomada não poderia fazer nada para impedir, mas reiterou que não houve, nem partiu dele, qualquer pedido de exoneração".

Caso Adélio

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No depoimento, Moro também rebateu algumas das afirmações feitas por Jair Bolsonaro na tarde de 24 de abril, após o ministro anunciar que deixaria o cargo.

Naquele momento, Bolsonaro disse que pediu a troca do superintendente da PF no Rio em razão da "questão do porteiro, do caso Adélio" e de citações a Jair Renan Bolsonaro, filho do presidente, em uma investigação.

Em 2 de maio, horas antes do depoimento, Bolsonaro postou vídeo em rede social comparando Moro a Judas. "Os mandantes estão em Brasília? O Judas, que hoje deporá, interferiu para que não se investigasse?", questionou. Moro diz, no depoimento, que "a Polícia Federal de Minas Gerais fez um amplo trabalho de investigação e isso foi mostrado ao Presidente ainda no primeiro semestre do ano de 2019, numa reunião ocorrida no Palácio do Planalto".

E que, nesta reunião, Bolsonaro "não apresentou qualquer contrariedade em relação ao que lhe foi apresentado". A apresentação, segundo Moro, foi feita porque Bolsonaro é vítima do caso e ainda por "questão de segurança nacional".

Moro nega interferência no caso Adélio e diz aos investigadores que "ao contrário, solicitou à Polícia Federal o máximo empenho e ainda chegou a informa à AGU, na pessoa do Ministro André Mendonça, da importância de que a AGU ingressasse na causa para defender o acesso ao celular, não pelo interesse pessoal do Presidente, mas também pelas questões relacionadas à Segurança Nacional".

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